quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Centro Nacional de Pensões e as motas...




Hoje esta história das pensões, dos cortes, da pressão sobre o Tribunal Constitucional deu-me a volta a cabeça e resolvi pôr a minha  bilis toda cá para fora. Resultado, uma carta para o Sr. Ministro Mota Soares. A foto da mota (tirada da net) não vai, para ele não ter ideias, que os tempos são de austeridade! Sempre ouvi dizer que os exemplos devem vir de cima!

A carta segue amanhã para o Correio. 


                   




Exmo. Sr. Ministro Mota Soares
Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social
Praça de Londres, 2 
1000-190 LISBOA


Lisboa, 29 de Novembro de 2013



Beneficiário nº XXXXXXX do Centro Nacional de Pensões





Exmo. Senhor Ministro



Desde o início deste ano que o valor que recebo da minha reforma é sempre uma incógnita.


Sempre trabalhei no sector privado, na verdade já nem sei bem, uma vez que ainda fiz parte dos Quadros de uma Seguradora que agora pertence ao Estado. A minha reforma é no entanto paga pelo Centro Nacional de Pensões.


Saiba V. Exa. que trabalhei 44 anos, reformei-me com 63 anos sem qualquer penalização a não ser o célebre factor de sustentabilidade. Sorte minha porque hoje já não seria assim uma vez que V. Exa. e os seus Colegas Ministros entendem que é preciso trabalhar até mais tarde e eu ainda por cima faço anos em Janeiro o que iria complicar a questão.


Fique descansado que não lhe venho pedir nenhum subsídio, nenhuma benesse, porque já sei a sua resposta: a Segurança Social não é sustentável! Eu discordo, obviamente, porque sei o que tem sido feito com o meu dinheiro e o da minha entidade patronal. Depois, estou de acordo com uma coisa, há realmente pessoas que não descontaram para as reformas que recebem mas essas estão no seu seio e não no meio dos meus.


Mas sabe, há uma coisa que me irrita muito e acho que é uma grande falta de consideração que V. Exa. tem para comigo e todos os que pertencem ao Centro Nacional de Pensões.


V.Exa. recebe um recibo de vencimento, não recebe? Todos os Funcionários Públicos recebem um recibo de vencimento, então pergunto-lhe porque é que eu não tenho o mesmo direito?


Já escrevi ao Centro Nacional de Pensões mas a resposta vinha de uma maneira que não é de certeza para se perceber e olhe que eu não sou burra.


Ora bem assim sendo, eu não sei o que me está a ser pago o que está a ser descontado, que IRS me está a ser aplicado, etc…


Ou seja, tenho o presente incerto dependente de um extracto bancário e um futuro muito incerto porque não sei se quando chegar a altura de fazer o IRS (vai ser preciso, não vai?) V.Exas. não me levam aquilo que eu não tenho.


Sabe, a minha ideia era ver se podia fazer umas poupançazitas para quando chegar esse terrível momento.

Para isso era preciso eu ter uma ideia, um recibo mesmo em papel reciclado, papel baratinho será que o Sr. Ministro não pode pedir lá ao Centro Nacional de Pensões que nos façam essa gentileza?
Sabe eu pertenço aquela geração dos poupadinhos que nunca gastaram mais que a conta, deram um curso superior aos filhos para agora termos a geração mais bem preparada de sempre… mas enfim isso já era outra conversa e o que eu quero é o recibozito… 
Faça lá esse favor Sr. Ministro, acredite que lhe fico muito grata!

Sim, eu sei que era preferível eu morrer rápido para não terem que me pagar mais nada mas eu sou muito cuidadosa com a minha saúde, a atravessar a rua, até ando mais de transportes públicos porque andam por aí muitos doidos na estrada. Tenha também cuidado quando anda de mota e não naqueles nossos carros bonitos de alta cilindrada e entre tantos motoristas escolha um que respeite os sinais, as velocidades, essas coisas, que o Sr. Ministro ainda é muito novo e ainda tem muito tempo até chegar à reforma. Isto digo eu!...


Com os meus sinceros cumprimentos,

                                                  Atentamente 




                        


sábado, 13 de julho de 2013

Sotãos, lugares de magia…








Os sótãos são sempre um lugar mágico. Com mais pó, menos pó ou teias de aranha nada lhes tira a magia!

Quem não tem uma moradia e mora num apartamento acaba quase sempre por ter uma arrecadação que aos poucos é igualzinha aos sótãos!

Eu também tenho uma. Passo anos sem lá ir, até que começo a sentir uma enorme vontade de ir lá descobrir as velharias e pôr ordem naquilo tudo. Arranjo uns sacos de plástico preto e começo a despachar. Claro que se as coisas estão lá há anos é porque não me fazem falta nenhuma e não são mais que lixo.

No lixo descobri, desta vez, coisas da década de 60. Cartas, cartas cor- de- rosa que são sempre tolas.

Naquela altura era uso e costume as raparigas e os rapazes corresponderem-se com jovens de outras nacionalidades o que, de certo modo, contribuía para o desenvolvimento das línguas estrangeiras e conhecimento de outras mentalidades e formas de vida.

Eu, não podia ser excepção. Já não me lembro bem quantos correspondentes de ambos os sexos tive mas franceses e brasileiros seguramente. Desses pelo menos lembro-me.

E lembro-me de um em particular, brasileiro que no dia 16 de Julho, faria ou faz, 73 anos e chamava-se Fernando Dantas Cortês.  

Claro que reli todas as cartas, o rapaz era engenheiro, construía estradas ao longo do Brasil e mandava-me histórias de todas as regiões, postais e fotos.

Nove anos de diferença é qualquer coisa naquela idade em que eu ainda completava os meus estudos. As cartas deliciavam-me, mais ainda porque eram elogiadas e começaram a falar de amor.

Claro que, antes disso muito se falou de Amizade. O que era, como devia ser, como nos dava desilusões de vez em quando.

Ao reler aquilo lembrei-me como ainda hoje a Amizade nos prega umas boas desilusões embora se tenham passado mais de quarenta anos. Inevitavelmente nem a idade nos poupa a essas coisas.

Note-se bem que as cartas se mantiveram por anos. A ascendência longínqua do sujeito era Portuguesa. Um ascendente longínquo tinha ido de Portugal para o Nordeste Brasileiro e aí formou família ficando o local a ser conhecido por Carnaúba dos Dantas, que ainda hoje existe e já não é apenas um localzinho perdido no Nordeste Brasileiro.

Jovens, como eu naquela altura, eram ainda pessoas com a personalidade em crescimento, se bem que nada seja comparável aos dias de hoje, em que comparativamente não passam de crianças brincando com playstations.

Não sei que lhe disse que ele um belo dia zangou-se comigo a sério e disse que nunca mais me escrevia. Se melhor o disse, melhor o fez, e as minhas cartas seguintes vieram pura e simplesmente devolvidas.

Estivesse eu na era dos computadores, teria certamente cópia do que tinha escrito e hoje, maduramente, poderia entender porque tal aconteceu. Assim fiquei sempre com a dúvida e sem a explicação. É que esta coisa de língua portuguesa e língua brasileira não é bem a mesma coisa e por isso se cometem lapsos sem saber o porquê.

Ainda hoje eu gostava de entender o que se passou e o caso me vem à ideia. E que gostava de saber o que foi a sua vida, ai isso eu também gostava!

Como já disse, reli as cartas todas, achei graça a alguns factos, e encontrei um poema que entendi não destruir e transpô-lo por aqui.

Afinal, ele foi uma pessoa que contribuiu para a minha formação e crescimento como pessoa e eu não me esqueci dele, o que significa que pelo menos eu tinha ali um Amigo e os Amigos não se separam nunca. Nem a distância, nem o Universo se for o caso.



As duas sombras

Na encruzilhada silenciosa do Destino,
Quando as estrelas se multiplicam,
Duas sombras errantes se encontram .

A primeira falou : - Nasci de um beijo.
De luz, sou força, vida, alma, esplendor.
Toda a ânsia do Universo...Eu sou o Amor.
O mundo sinto exâmine a meus pés...
Sou Delírio...Loucura...E tu, quem és?

Eu nasci de uma lágrima. Sou flama.
Do teu incêndio que devora...
Vivo, dos olhos tristes de quem ama,
Para os olhos nevoentos de quem chora.

Dizem que ao mundo vim para ser boa.
Para dar do meu sangue a quem queira.
Sou a saudade, a tua companheira
Que punge, que consola e que perdoa...

Na encruzilhada silenciosa do Destino
As duas sombras se abraçaram.
E desde então, nunca mais se
separaram.


Poema de Olegário Mariano

domingo, 9 de junho de 2013

Tanta dor, tanta amargura...





 

Tanta dor, tanta amargura,
A sulcar faces tão belas 
E tanta água que é pura 
A lavar sujas vielas.
(Armando Goes)


 
Encontro marcado às 14:30h 6 de Junho na Praça de Londres.

Foi agradável conhecer os Colegas de luta de outros pontos do País. Senti a força que unia todos e por mais estranho que pareça, eram como Amigos de longa data. Cheguei a pensar que alguns eram ainda mais Amigos que outros que tenho mais antigos…

Descobri que a força da luta nos torna fortes, unidos nos mesmos objectivos, desligados de ninharias e factos fúteis. Eu sabia isso, mas ali tudo se revestia de uma intensidade muito maior.

Enquanto se gritavam palavras de ordem que se ouviam no 17º andar do Ministério da Solidariedade e Segurança Social (?) eu pensava na minha vida.

Foi sempre uma vida feita de lutas, de persistência, de querer saber, saber estar, de teimar até alcançar o objectivo, de ensinar aos mais jovens o meu saber, ajudá-los a crescer, enxugar algumas vezes as suas lágrimas pelos reveses das suas vidas.

E lutei para fazer do meu filho um Homem, luta que se tornou mais difícil quando o meu marido ficou desempregado pela falência da Empresa. Uma reforma forçada por ser velho para trabalhar, novo para se reformar o que implicou penalização.

Mesmo assim nunca dei um passo maior que a perna. A minha casa está paga, o carro também, o filho licenciou-se numa boa Universidade privada, faz actualmente uma especialização.

Mesmo no fim da minha vida de 44 anos de trabalho, tive uma luta com a minha entidade patronal, para que me fosse feita justiça, para não perder o que já alcançara. Ganhei a luta, perdi saúde.

Pensei na minha mãe que, com pouco mais de 600 euros de pensão de sobrevivência, vai ter que pagar quase 250 de IRS. Pensei no orgulho dela, cuja vida foi muito mais difícil que a minha porque aos 8 anos ficou sem mãe e três irmãs mais novas para cuidar. Orgulho que não permite que eu lhe pague a máquina de lavar que lhe comprei para substituir a que se avariou. Não nos quer sobrecarregar nem a mim nem ao meu irmão.

E enquanto as palavras de ordem, os cantos se repetiam, a cabeça continuava a pensar. Deixei as minhas lutas e comecei a pensar em todos aqueles que estão piores que eu. Há sempre alguém pior que nós.

Pensei em quem ainda tem menos e nas crianças com fome que desfalecem na escola. Pensei que quando vou a Lisboa de comboio há pessoas a viver debaixo das pontes…

Que Mundo é este meu Deus que deixa crianças com fome? E pensei nas mães dessas crianças e achei que eu seria capaz de roubar para dar de comer ao meu filho.

Que sentiria vergonha ter que ir a uma instituição pedir comida, roupas… Pensei mesmo que não iria… E lembrei-me dos suicídios que estão sempre a acontecer mas que os jornais nem referem.

Pensei no desespero que algumas famílias estão a passar e as leva ao suicídio colectivo.

E aí chegou a raiva. A raiva por saber todo o sofrimento de quem vê os seus filhos partir para bem longe na procura de algo melhor. Afastei o pensamento porque não consigo imaginar a dor.

Mas a raiva aumentava e eu, que quando choro o faço sozinha, não me contive e chorei lágrimas de ódio por tudo o que nos estão a fazer, sem pensar que o fazia à frente de centenas de pessoas. Estão a destruir o meu Portugal, a matar os idosos de dor, solidão e doença enquanto os verdadeiros responsáveis estão ao Sol, perfeitamente em Paz com a sua suja consciência.

Disfarçam a sua incompetência com a chuva e curvam a coluna perante a Alemanha e a Troika vendendo aos bocados o País onde nasci lindo de cima abaixo, com pessoas excepcionais que mandam sair do seu conforto.

E a raiva cresceu tanto como a certeza de que estou do lado da razão que as lágrimas caíram cheias de revolta mas com uma força e pronta para uma luta que eu nunca julguei ser capaz de fazer!


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Peste Grisalha

A propósito do Deputado do PSD que diz que a nossa Pátria sofre de Peste Grisalha não consegui conter a raiva e a seguir transcrevo o mail que lhe enviei que é para alguém me defender se criarem uma nova prisão de alta segurança ou me mandarem internar num hospício.
 
Segundo o seu comentário que transcrevo a seguir gostaria de lhe fazer algumas perguntas:
A propósito de demografia escreveu: "A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha."
Ora bem:
1º - Deduzo que o Sr. Deputado que nasceu a 13 de Fevereiro de 1968 foi por obra e graça do Espírito Santo e como tal deve achar-se um filho de Deus que desceu à Terra.
2º - Portanto cresceu sem pai, sem mãe, sem avós e sem berço.
3º - Apesar de tudo isso nasceu feliz porque hoje não tem ninguém na sua família a quem possa dizer que faz parte da peste grisalha
4º - Também não tem que agradecer a ninguém os estudos que tem. Chegou a advogado também por obra do Espírito Santo!
E agora vamos a conclusões. Pois fique sabendo que eu tenho na minha família e eu própria pertenço à peste grisalha. E fique sabendo também que quando o Sr. Deputado nasceu já eu trabalhava. E assim foi durante 44 anos, não devo nada a ninguém, tenho educação, princípios e moral coisa que lhe falta a si e muito!
A si falta-lhe tudo o que eu tenho, amor, amizade, convicções, solidariedade, determinação. Tive pai, mãe, avós, berço, mesmo que tudo tenha sido modesto.
Sabe que se não morrer cedo e espero que não, terá que engolir as palavras que disse ou então pintar o seu cabelo porque a peste também lhe chegará e alguém poderá lembrar-se do que disse. Alguém obviamente mais novo porque o Sr. Deputado poderia ser meu filho hipoteticamente falando. Felizmente não é porque para seu mal seria diferente ou então não se livrava de um bom par de estalos. Fique bem no meio dos seus e não se esqueça de todas as noites agradecer ao Espírito Santo!