terça-feira, 27 de dezembro de 2011

História de uma boneca

Era uma criança franzina, um pouco alta para a idade. Na escola primária era a melhor aluna. Nunca causou qualquer problema com as outras crianças mas não tinha grande popularidade. Era mesmo vista com alguma indiferença e posta um pouco à parte. Não brincava na rua nem tinha grandes amizades.
Talvez fosse essa a razão pela qual era a menina bonita da professora. A Dona Sílvia mostrava os seus cadernos como um exemplo a ser seguido. A letra era certa, arredondada, bonita. Aprendeu a ler com facilidade e as contas eram resolvidas rapidamente.
A caminho da escola havia, do outro lado da rua, um Bazar que vendia de tudo um pouco. Nas duas montras maiores havia sempre brinquedos que exerciam sobre a criançada um grande fascínio mas ela estava proibida de atravessar a rua.
De todas as vezes que a mãe lhe perguntava se queria ir ao Mercado com ela a resposta era sempre afirmativa. Sabia que, a caminho do Mercado, ficava o Bazar de S. Paulo. Pedia á mãe para lhe deixar ver a montra e ali ficava a olhar tanto tempo quanto lhe fosse permitido.
Um dia, o Natal começou a aproximar-se e as montras foram decoradas com luzes coloridas que apagavam e acendiam.
Um das montras tinha todo o tipo de coisas para gente adulta, ferramentas, pequenos aparelhos, coisas que não lhe interessavam mesmo nada mas a outra montra era uma perdição. Carrinhos, bonecas, panelinhas,
pequeninas mobílias, piões, jogos e sei lá que mais…
De cada vez era mais difícil descolar o nariz da montra. As bonecas eram todas bonitas mas havia uma muito especial. Não era de papelão como estava habituada a ter nem tão pouco de porcelana como as da prima que tinha um pai rico mas que não a deixava brincar porque se partiam… Era feita de uma outra coisa que ela não sabia bem o quê e tinha cabelo! Uns caracóis longos e brilhantes lindos num castanho dourado e uns olhos azuis! Disseram-lhe que abria e fechava os olhos quando se deitava e que chorava. Um verdadeiro tesouro quando comparada com as suas bonecas de cartão! Era linda de morrer com um vestido de veludo vermelho escuro e até tinha sapatos!
Escusado será dizer que quase sonhava com a boneca todos os dias. Não perdia nunca a oportunidade de olhar a montra. E pensava, será que se eu a pedisse ao Pai Natal ou ao Menino Jesus eles me davam aquela boneca? Um dia encheu-se de coragem e perguntou á Mãe. Tinha a noção que devia ser muito cara pois se até tinha cabelo mesmo a sério! A Mãe respondeu-lhe o que já sabia, era mesmo muito cara mas quem sabe? Como ela se portava bem, talvez, não sabia…
Claro que nos dias seguintes ainda se esforçou mais. Não errava um problema, não dava um erro!
Um dia a boneca desapareceu! Que desespero!
Mãe já não está cá a boneca alguém a comprou!
E a mãe respondeu que era natural porque o Pai Natal já andava a fazer as compras…
As outras continuavam lá mas aquela… Foi-se o sonho! Pronto, já não ia ter aquela boneca nem sequer lhe restava o consolo de olhar para ela.
Chegou finalmente a noite de Natal. Lá foi pôr o sapatinho na chaminé sem esperança, sem fé, convicta que iria lá encontrar um chocolate e talvez uma outra boneca de papelão em que os cabelos não existiam porque eram desenhados apenas e nada mais... Quem sabe também um livro para colorir como tanto gostava.
As noites de Natal são sempre mais longas para as crianças do que para os adultos! Levam um tempo infinito a passar, mesmo quando mal dormem e acordam ainda antes do Sol nascer!
Lá foi do quarto até á cozinha pensando que uma boneca de cartão era melhor que nada!
Milagre! A boneca estava ali! De braços abertos virada bem de frente para ela! Soltou um grito!
Ó Mãe, ó Pai! O Pai Natal trouxe-me a boneca de que eu gostava tanto!
Às escondidas chorou de alegria agarrada á boneca que nunca mais largou! Os pais riam-se com ar feliz!
Santa inocência de uma criança que acreditava no Pai Natal e nos milagres do Menino Jesus!
Ainda hoje, não há Natal em que não se lembre de tamanha alegria.
Hoje sabe que aquela boneca custava uma pequena fortuna naqueles tempos.
Hoje sabe que os Pais fazem tudo pelos seus Filhos.
A boneca ainda existe, já sem caracóis, cabelos lisos de tanto ser penteada, uma sombra do que foi mas companheira de tantas brincadeiras.
Um dia talvez seja restaurada porque uma Amiga de tantos anos não merece acabar assim…
Nota: Imagens retiradas da Internet