domingo, 13 de agosto de 2017


95 Anos

Querida Mãe os dois últimos anos foram anos de muitas dificuldades, contrariedades, desesperos mas passaram.
Eu nunca mais escrevi. Não tinha nada para contar porque tudo parecia negro e triste.
Hoje eu e o mano estamos felizes. Não queres festas e nós aceitamos.
Escolhi esta foto da tua recuperação propositadamente.Gosto muito de ti e mesmo de braço ao peito não quis deixar de escrever isto.
Não gosto que nos agradeças tudo o que fazemos, não queremos lágrimas, queremos apenas que estejas bem.
Não gostamos que digas que estás velha, a tua cabeça está esquecida porque não é verdade e a tua força de vontade é um exemplo para mim e para o mano quando nos vamos abaixo. Muitas vezes é de ti que nos vem a coragem.
Nós só queremos que sejas Feliz e que estejas entre nós muito tempo na companhia do safadito do teu Perri.




quinta-feira, 19 de março de 2015

Meu Pai...

Meu Pai...
Hoje é de novo o teu dia
É o que diz o calendário...

Mas, sabes Pai?
Para mim todos os dias são teus...
Pois se em todos te lembro!

E as saudades que não me largam...
Gostava tanto que viesses aqui...
Podia ser só um bocadinho...
Tempo para um beijinho...
Tempo para um abraço apertado...
Tempo para uma conversa...

Pois... não pode ser Pai, mas deixa...
Um qualquer dia estaremos juntos...
Quando?
Não sabemos Pai...
Mas o tempo passa correndo...
É um dia destes por aí...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

26 de Novembro de 1956






Ao lado da porta do prédio onde eu morava com os meus pais e os meus tios havia uma loja de antiguidades. Ainda hoje existe embora com um aspecto diferente.

Além do dono da loja, esta era muito frequentada pelo Marquês de Pombal, homem grande, forte, que gostava de uma boa conversa e que, amigo da família, gostava de brincar comigo e saber como eu ía na escola. Era muitas vezes capaz de me sentar no colo e de me contar uma história.

Ao tempo a minha mãe estava grávida e eu queria há muito ter um irmão. Uma vez que naquela altura nunca se sabia o que ia nascer perguntavam-me sempre porque é que eu não queria uma irmã. 

Eu muito irritada explicava que queria um menino porque se fosse uma menina me estragava as minhas bonecas. 

Toda a gente tentava preparar-me para o eventual nascimento de uma menina e por vezes, quando me queriam ver arreliada,  diziam-me que seguramente era uma mana porque a minha mãe tinha a barriga com o feitio de uma menina. 


Num dia cinzento e chuvoso quando eu regressava da escola primária, tinha então sete anos e dez meses, resolveram pregar-me uma partida.


Lá estava o Sr. Santos e o Sr. Marquês de Pombal que me apanharam na curva e me chamaram: Anda cá, anda cá! Vai a correr que já tens lá em casa uma mana! É muito bonita!

Larguei-os logo com um NÃO QUERO aflito e subi a escada numa correria louca, sem olhar para trás. Se tivesse olhado teria percebido a malandrice.

Toquei à porta e veio abrir a minha tia que me viu sem folego e em pranto! Que foi que te aconteceu perguntou, alarmada. Por meio de soluços eu respondi: Tia eu não quero uma mana. Não Quero! E chorava, chorava...

Ó menina mas ainda não nasceu! E eu nada convencida disse-lhe: Ó tia mas o Sr. Santos e o Sr. Marquês disseram-me que eu já tinha cá uma mana muito bonita mas eu não quero!

Claro que a minha tia percebeu que me tinham pregado uma partida e fez tudo o que era possivel para me acalmar mas muito arreliada com a brincadeira. Não era para menos que eu não me calava! Lá me levou até ao berço para eu ter a certeza que ainda não havia bébé nenhum!

Quando o meu pai chegou a casa corri para lhe perguntar se já tinha nascido o bébé ao que ele, com um ar feliz, me disse que eu tinha um irmão! Foi a maior felicidade que eu tive até aquela idade e uma das maiores da minha vida até hoje!

Naquele tempo não deixavam as crianças ir à maternidade pelo que só vi o mano uns dias depois mas ele era lindo de morrer! Assim que chegava da escola ia a correr sentar-me na cama da minha mãe junto do berço e era aí que, sobre os joelhos eu fazia os trabalhos da escola.

Fazia questão de lhe mudar, e até lavar, as fraldas com a vigilância da minha mãe que não queria que eu as lavasse mas quando ela dava por isso já estava tudo num brinquinho!

Agora creio que me vão perguntar o que aconteceu às minhas bonecas! Claro que o deixei brincar com todas, furou a cabeça do meu Fernandinho que era o meu boneco preferido, brinquei com ele aos carrinhos, ajudei-o a montar Legos e amo-o muito. Como não tenho mais nenhum não sei se o poderia amar ainda mais, mas estou crente que não.

De vez em quando lá nos arreliamos especialmente porque ele não cuida da saúde convenientemente e isso é o que mais me custa e não lhe desculpo.

Tudo o resto corre às mil maravilhas e claro está que a minha tia ralhou com o Sr. Santos e o Sr. Marquês que já não pertencem a este Mundo há muito. Eu por mim acabei por lhes perdoar a partida.





domingo, 26 de outubro de 2014

25 e 26 de Abril de 1974


No dia 25 de Abril de 1974 tinha 23 anos e morava na Rua do Alecrim, no último andar do prédio a seguir ao Palácio Quintela, cujas traseiras dão para o jardim do Palácio e Rua António Maria Cardoso, avistando parte do cinema S. Luís.
Não tinha o hábito de ouvir o rádio de manhã e não me apercebendo de nada, desci para a R. da Prata onde trabalhava na antiga Companhia de Seguros Ultramarina. Durante o trajecto, achei alguns movimentos estranhos, as pessoas pareciam-me agitadas, diferentes, mas mesmo assim continuei e entrei no local de trabalho.
Aí falava-se num golpe de Estado, das janelas viam-se tanques no Terreiro do Paço. Comecei a achar a situação complicada. Lembrava-me do meu tio ter sido perseguido pela PIDE. Interrogava-me a mim própria: E se agora desatam todos aos tiros e temos aqui um banho de sangue? Deve ser inevitável, vão começar a lutar uns contra os outros. Estarão todos contra o Governo? Alguns começaram a dizer que tinham medo e iam para casa, outros que iam ver o que se passava.
Os tanques começaram a subir a Rua da Prata, os soldados e o povo que já se juntava a eles, ao passar em frente da Companhia, gritaram: Fascistas, fascistas, fascistas! Uma Colega grávida começou a gritar, branca como a cal da parede. Na minha aparentemente calma gritei com ela que quase desmaiava: ou te calas ou dou-te um par de estalos… olha a criança, como é que eu te tiro daqui se te dá alguma coisa? Consegui acalmá-la e entretanto chegou o marido que a levou. O meu veio um pouco depois. A Administração mandou fechar a Companhia e irem todos para casa.
Andei por becos e travessas onde havia pouca gente, mas lembro-me bem de ver o alcatrão da Rua da Prata todo rebentado pelas lagartas dos tanques.
Chegada a casa já estávamos todos e devorávamos tudo quanto se passava na televisão. Conforme os pontos-chave iam sendo ocupados, parecia uma vitória. Começaram a aparecer os cravos e o meu pai sempre tão calado parecia satisfeito. Eu pensava: se isto resultar, talvez o meu irmão não vá para a guerra, já me bastava terem ido os amigos.
Durante a tarde desse dia, por volta das 16 horas, ouviram-se tiros e o meu marido lembra-se como se fosse hoje de um homem que descia a Rua ter sido atingido mortalmente. Antigamente havia uns terrenos onde hoje existem os Terraços de Bragança, e o tiro veio da PIDE. Esse facto deu conta do meu sistema intestinal e corria para a casa de banho que ficava nas traseiras e cujas portadas foram fechadas por indicação do meu pai, com ordens de ninguém acender a luz.
Pela Rua do Alecrim começou a subir uma multidão que gritava: morte aos PIDES! Recomeçaram os tiros e houve mais mortes. Isso oiço ainda na minha cabeça. Mal dormimos com receio de que soldados e PIDES andassem em cima dos telhados, porque o desespero já era grande.
O dia seguinte revelou-se uma autêntica surpresa. Chegados à janela, havia tanques no Camões, tanques ao fundo da rua, morteiros montados em frente ao Palácio no Largo Barão de Quintela.
Nunca tinha visto morteiros e perguntei ao meu marido o que era aquilo. A explicação deixou-me apreensiva. Ninguém passava na Rua e os soldados não deixavam ninguém estar nas janelas. Comecei a pensar que os morteiros podiam não ser certeiros e fazerem um buraco no nosso telhado. A minha mãe achou que eu tinha razão e o meu pai começou a ficar inquieto, o meu irmão com 15 anos estava menos consciente do perigo.
O meu marido decidiu ir falar com os soldados para saber o que fazer. Considerando que estávamos no último andar e os PIDES ainda não se tinham rendido, poderia haver necessidade de dispararem. Fizeram uma reunião e decidiram que seríamos retirados de casa com a sua protecção. Assim foi feito, em fila indiana, um soldado para cada um, encostados aos prédios e passando para o Largo Barão de Quintela onde o meu pai tinha o carro estacionado.
Assim saímos dali, mas o curioso é que no resto da cidade a vida parecia correr normalmente, com cravos vermelhos e risos abertos. Fui a única pessoa que não trabalhou nesse dia, mas viu a sua falta justificada pelos patrões apelidados de fascistas.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Idalina




Idalina era o teu nome...
Brincamos juntas em crianças...
Sonhamos tanta coisa...
Todas nós viriamos a ser princesas...
Íamos ter uma vida de sonho...
Afinal, querida prima...
Nada correu como os nossos sonhos...
Estudamos, trabalhamos...
Tu ficaste só cuidando da tua mãe...
Malvada doença que te apanhou...
Malvada doença que hoje te levou de nós...
Descansas enfim, mas tanto sofrimento...
Para quê meu Deus?
E os nossos sonhos desfeitos...
E a saudade que agora fica...
E a dor que sentimos...
E dos oito que eramos ficamos sete...
Quando teu corpo descer à terra...
As nossas lágrimas salgadas irão cair...
Cair na terra que te vai cobrir...
Sobre ela flores de várias cores
E nós voltaremos depois as costas...
Tristes, cabisbaixos, silenciosos...
Mas uma coisa é certa querida prima...
Nunca te esqueceremos...
Nas tuas veias corria sangue igual ao nosso...
Descansa agora em Paz para todo o sempre...



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Amizade outra forma de Amor?



Amor...
Disse Camões
É fogo que arde sem se ver...
Será?

Amor tem tantas formas...
É sede que não acaba nunca...
Amor de Pai,
Amor de Mãe,
Amor de Filho,
Amor à Vida, 
Amor ao Sol que nasce e se põe...
Amor ás flores, aos pássaros,
Amor à Terra que nos alimenta
Amor ao ser que amamos...
Amor tantas vezes ilusão...
Amor tantas vezes verdadeiro...
Amor tantas vezes Amizade...
Porque eu creio que sem Amor
Não existe Amizade...
Amizade é Amor sem asas

A Amizade é como o Amor
Pode ser apenas uma ilusão...
A Amizade também arde e queima corações...
Dói como Amor não correspondido... 

Afinal talvez Camões tenha razão!
Amizade também é fogo que arde sem se ver...
É sede que não acaba nunca... 

Será?

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Carta aberta ao Primeiro Ministro ou... Como eu deixei de gostar do meu País...


Sr. Primeiro-Ministro,

Quando eu nasci, já lá vão 65 anos, sei que os tempos eram difíceis. Tinha acabado uma guerra e os tempos que lhes seguem são sempre maus.
A minha mãe lembro-me bem, engomava e cozinhava a carvão. Mais tarde veio o petróleo e ela fazia questão de ter o fogareiro bem brilhante. As minhas mãos ficaram muitas vezes sujas desse trabalho de limpeza.
A minha avó primeiro e depois o meu avô ficaram acamados e não havia máquinas de lavar roupa nem fraldas descartáveis. 
Não havia frigorifico e portanto todos os dias a minha mãe subia a Rua do Alecrim vinda da Ribeira com os alimentos necessários para todos.
O meu pai trabalhava duramente, muitas horas e por vezes ia para as nossas ex-Colónias porque lá não havia técnicos para arranjar os aparelhos que se avariavam nos hospitais. Eu morria de saudades dele, bem pequena ainda, olhava os aviões e perguntava, quando vem o pai...
Mas eu cresci e a vida lentamente foi mudando.
Finalmente a minha mãe teve uma máquina de lavar roupa, um fogão a gás, um frigorífico. Os avós morreram, primeiro a avó depois o avô e eu ainda ganhei um irmão.
Já andava na escola e lembro-me bem desse dia onde toda a classe cantou os parabéns. Adorava o meu irmão tal como ainda hoje.
Quando saí da instrução primária o meu pai mandou-me para a secundária. Sabe naquele tempo havia meninos e meninas que aos dez anos iam trabalhar mas o meu pai não me deixou ir. 
A vida melhorava aos poucos a televisão era vista em casa dos amigos aos fins-de-semana. Sim, porque a televisão tardou a ser comprada lá em casa e era a preto e branco enquanto a vida ia ganhando cores mais alegres e menos cinzentas.
Nunca bebi, nunca me meti em drogas, nunca fumei, nunca frequentei consertos de Verão. Nem eu nem o meu irmão. 
O meu pai já partiu mas a minha mãe tem 92 anos e ainda vive com a reforma que o meu pai lhe deixou e a ajuda do meu irmão e a minha.
Cresci, estudei, tirei um curso técnico e ensinaram-me que todos devíamos respeitar os valores da nossa Pátria e nela ter orgulho. E eu tinha! Ensinaram-me a respeitar os idosos, a dar-lhes o lugar no eléctrico, a dar os bons dias, a dizer por favor e muito obrigada. Disseram-me ainda que devíamos ter orgulho nos nossos Pais, amar todos os homens como irmãos. Obrigaram-me a frequentar a catequese e a fazer a primeira comunhão. É que eu ainda vivi em ditadura...
Chegou a altura de casar e fi-lo sem gastar um tostão aos meus pais. Fi-lo com o dinheiro que ganhei, que meus pais nunca me aceitaram nada que fosse, para que eu casasse com o meu enxoval de princesa. A vida estava melhor mas mesmo assim durante uns tempos vivi com os meus pais e o meu irmão até conseguir alugar uma casa. 
Vivia horrorizada a pensar que o meu irmão podia ir para as ex-Colónias numa guerra que não me dizia nada mas que servia interesses vários... O meu marido tinha lá estado e ainda hoje sofre de stress pós-traumático...
Vivi o 25 de Abril com alegria, com sensação de liberdade, de poder falar sem medo do parceiro do lado. Vivi a alegria da libertação dos presos políticos e pensei que a ditadura tinha acabado para sempre.
Mais tarde acabei por comprar a casa que tinha alugado e depois trocar por outra um pouco maior porque a família cresceu. Por sinal somos vizinhos mas não tenho orgulho nenhum nisso.
Pedi um empréstimo ao Banco, coisa difícil naquela altura, mas foi o único empréstimo que pedi na vida e paguei tudo até ao último centavo. Com tudo isto quero eu dizer que nem eu nem a minha família alguma vez viveu acima das suas possibilidades.
Ao meu filho dei um curso superior numa Universidade tornando-o um cidadão útil ao País. Dei-lhe um carro que paguei a pronto para ele se fazer à vida. Transmiti-lhe os meus valores e ele quinze dias depois de terminar o curso estava a trabalhar num hospital, sem cunhas nem favores que eu não conheço Ministros. Mal pago é certo mas ele anda em frente como eu o fiz.
Eu trabalhei 44 anos no privado, fiz muitas horas extras que nunca me foram pagas por inerência das minhas funções, descontando, eu e as minhas entidades patronais catorze vezes por ano, reformando-me aos 63 anos sem penalização mas com uma taxa de sustentabilidade para a Segurança Social introduzida na altura do Governo Sócrates.
Porquê esta cantilena numa carta que lhe dirijo? É que o senhor não viveu neste tempo e parece odiar quem teve estes sofrimentos...
Pensei eu, ingénua ainda, que finalmente ia poder fazer o que gosto, ver outras caras, outros modos de vida porque a nossa mente deve estar aberta para tudo o que é novo e devemos evoluir.
Afinal Sr. Primeiro-Ministro estava enganada.
Bastou vir o seu Governo, que se curva perante uma Alemanha (que continua nazi na minha opinião),  para eu passar a fazer parte da peste grisalha como se tivesse lepra e fosse um alvo a abater. Curiosamente lá o Tribunal deles considera as pensões propriedade privada!
Bastou chegar a Madame Christine Lagarde a dizer que há velhos a mais no Mundo, o que é um verdadeiro drama, esquecendo-se que se não morrer também lá chega e nessa altura espero, em nome de todos os velhos, que não se esqueçam do que ela disse e lhe tratem da saúde.
E agora o seu Governo vem dizer que eu gastei acima das minhas possibilidades? EU, Sr. Primeiro-Ministro? Em quê? 
E agora Sr. Primeiro-Ministro? Esqueceu-se, isso eu sei, das promessas eleitorais que fez?  Pois, diz o seu amigo deputado, que se não fossem as mentiras não se ganhavam eleições...
E o Sr. Primeiro-Ministro deixa que digam estas coisas e concorda porque sempre me disseram que quem cala consente.
Agora acha bem o Sr. Primeiro-Ministro que me cortem na minha pensão como querem e muito bem entendem, que me tirem os subsídios, porque na verdade os tiram, com tanto imposto e eu nem tenha o direito de saber quanto? Isto porque o Centro Nacional de Pensões não emite recibos para ninguém e se o seu Ministro da Segurança Social fosse competente já tinha resolvido esta questão que já lha coloquei directamente. Ele disse que ia resolver mas não disse quando. Assim estão mais à vontade, eu é que me vejo aflita para gerir as minhas contas porque nunca sei com o que conto...
E agora Sr. Primeiro-Ministro? Vem o Senhor no Pontal dizer que até 2015 não trata mais da reforma da Segurança Social mas eu não acredito. O Senhor falou do BES e da promiscuidade entre a política e os interesses do capital mas esqueceu-se de falar no BPN.  Eu pago o BPN, eu vou pagar o BES que o pobrezinho do Dr. Ricardo Salgado não tem nada de seu, eu pago o seu ordenado, o dos seus Ministros todos, os dos seus jovens recém-formados especialistas (?), os Secretários de Estado, os Deputados, as vossas gasolinas, os vossos carros, os vossos motoristas, os vossos seguranças, a vossa saúde, as despesas do Sr. Presidente e da sua D. Maria a sua alimentação e também a da sua família quando calha, as vossas viagens, as Fundações, os Observatórios de tudo e de nada, as PPP, os altos funcionários do Banco de Portugal que não fiscalizam nada, os vencimentos dos Juízes de todos os Tribunais que também estudaram mal a Constituição, as viagens de Falcon, os submarinos com uma história mal contada e tudo o mais que agora não me vem á cabeça e nada disto eu posso declarar como dependente na minha declaração de IRS?
O Sr. Primeiro-Ministro não pode mandar que se faça Justiça metendo na cadeia e acima de tudo PENHORAR os bens de todos os que andaram a roubar, porque é de roubos que se trata, e levaram o meu País a esta desgraça? Vão todos para casa de pulseira electrónica mas a mãe que rouba uma lata de atum num supermercado para dar de comer ao filho vai presa. Vai, digo-lhe eu que já evitei uma situação dessas pagando eu, acha bem?

Sabe que mais?
Eu gostava de saber a sua história de vida.

É como a minha e a dos meus Pais? Não é pois não? É que eu acho que se fosse, o Sr. Primeiro-Ministro, não odiava tanto os velhos e os funcionários públicos. Respeitava-os! Mas já duvido que saiba o que é respeito... Porque já reparou que são sempre os mesmos a levar com os cortes e com todas as palavras descabidas que se lembra de deitar boca fora? As palavras também são agressões psicológicas que faz, ninguém lhe disse? Foram os velhos e os funcionários públicos que deram conta do País? O Senhor sabe bem que não.
A Segurança Social não é sustentável? Como é queria que fosse se o Estado não paga a sua parte e investe em produtos de risco como fez no BES, na divida pública e dali se paga acções humanitárias no Kosovo e tudo o mais que muita gente nem sonha?
Há reformas muito altas de pessoas que não descontaram para as ter dizem os senhores. Há pois há, olhe à sua volta que as vê logo! Na Assembleia por exemplo... Há quem tenha de idade tanto como eu de descontos! Porque, as restantes que há, são de pessoas que descontaram para isso durante muito tempo e não serão muitas. 
São as dos velhos, Sr. Primeiro-Ministro? Se são explique-me muito explicadinho como se eu fosse muito burra!
E já agora explique-me porque é que eu se comprar barras de ouro não pago IVA e se comprar um pacote de leite pago? Não que eu as compre, que o dinheiro não dá, mas faz sentido?
E a natalidade, então quer que agora eu tenha filhos? Pode lá ser! Mas já tive e cresceu, os seus não crescem? E vou ser penalizada porque já não tenho um filho dependente? Porque lhe dei asas? Dependentes tenho eu e muitos...
E por acaso sabe que há velhos (usando a vossa linguagem) que têm pais ainda mais velhos com reformas pequeninas a quem têm que dar apoio?
E por acaso sabe que há velhos que têm filhos no desemprego e netos a cargo?
E por acaso conhece a dor dos pais que fizeram sacrifícios para os seus filhos estudarem e que o Senhor mandou embora? Os seus e os dos seus amigos foram?  Não acredito, porque são os seus jovens recém-formados especialistas que estão a estudar não sei o quê nos vossos gabinetes... Mais o filho do Sr. Durão Barroso que entra no Banco de Portugal porque tem uma grande experiência!
Sr. Primeiro-Ministro sabe um dia também vai ser velho e eu tenho pena de cá não estar para ver, porque o Senhor vai ficar na história como o homem que destruiu um Povo e um País que eu amava. 
Tenho pena, muita pena mas já não gosto deste País porque é um país que não respeita os seus velhos, os velhos que viveram uma guerra nas ex-Colónias porque eram obrigados, que construíram as estradas, os hospitais, as escolas, as Universidades onde os senhores estudaram, os Tribunais, o Povo que lavrou a terra, tratou o gado que depois mandaram destruir e abater em troca de nada. Povo que agora se deixa morrer nos hospitais sem meios, quando lá chegam a tempo claro, porque por vezes são grandes as distâncias a percorrer e morrem no caminho, sem a dignidade devida a um ser humano independentemente da sua classe social. 
Já não gosto deste País revoltado, nem destes políticos que não sabem falar, não sabem escrever, não sabem ser HOMENS nem MULHERES!
Já agora, fique descansado, por enquanto tenho os impostos em dia e não tenho nenhuma reforma milionária, o meu marido ainda menos, por isso lhe digo por enquanto! 
E sabe que mais? Eu sinto um sufoco imenso pelo futuro que deixei de ter, por quem dorme debaixo da ponte, pelas crianças com fome, por um Povo que já não ri e pelo tempo que perdi a escrever-lhe mas se o não fizesse não dormia descansada! Este é o meu grito de revolta contra si e os seus imberbes deputados e ministros que não sabem o que é a vida porque tudo lhes foi dado de mão beijada. Não foi nada alcançado com esforço.
Sei que não vai ler esta carta porque é longa mas pode ser que algum desses seus garotos a leia e fique a pensar se é que sabem pensar o que também duvido...
Desculpe não dizer atentamente como me ensinaram mas eu já nem o posso ver nem ouvir porque o Senhor destila ódio por todos os poros contra os velhos que construíram este País que só serve aos ricos.

Virgínia Machado

Contribuinte nº xxxxxxxxx